Por Ella Cao e Tom Polansek e Ana Mano
PEQUIM, 1 Abr (Reuters) - A China se comprometeu a tomar uma decisão "justa e objetiva" em um procedimento que investiga importações de carne bovina, o qual poderia levar a tarifas mais altas ou a restrições comerciais caso prevaleça o entendimento de que existe risco à indústria nacional.
Lançada no fim do ano passado, a investigação no maior importador mundial de carne bovina abrange compras de todas as origens. A investigação ocorre em um momento de disputa comercial entre os Estados Unidos e China, que reciprocamente impuseram tarifas aos produtos um do outro em março.
A apuração do governo chinês vem na esteira de uma desaceleração da demanda e do excesso de oferta, os quais pressionam a indústria de carne bovina local.
Numa audiência segunda-feira, o Ministério do Comércio da China se reuniu com cerca de 180 representantes de exportadores, incluindo autoridades de fornecedores como Brasil, Argentina, Uruguai, Austrália e Estados Unidos. Empresas, associações comerciais, importadores chineses e produtores locais de carne bovina também compareceram, informou o ministério.
A China importou um recorde de 2,87 milhões de toneladas de carne bovina em 2024, de acordo com dados alfandegários, aumentando as preocupações sobre possíveis restrições comerciais que poderiam atingir seus grandes fornecedores.
O Brasil, maior exportador de carne bovina do mundo, vendeu sozinho 1,3 milhão de toneladas para a China no ano passado, de acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
O porta-voz da Federação de Exportação de Carnes dos EUA, Joe Schuele, disse que a carne bovina dos EUA atende principalmente aos setores de varejo e comércios de gêneros alimentícios voltados a um público da alta renda. A carne norte-americana não compete diretamente com o produto local, que geralmente tem preços mais baixos.
"Não achamos que quaisquer restrições à carne bovina dos EUA beneficiarão o setor doméstico", disse Schuele.
As empresas brasileiras exportam carne bovina magra, que é fornecida à indústria chinesa, e não os chamados cortes premium, que são vendidos em supermercados chineses, disse o presidente da Abiec, Roberto Perosa, nesta terça-feira.
Os próximos passos da investigação de Pequim envolverão autoridades chinesas visitando países sob investigação em maio, disse Perosa.
As preocupações do setor foram agravadas por acontecimentos recentes. No mês passado, a alfândega chinesa suspendeu temporariamente as importações de carne bovina de seis empresas do Brasil, Argentina e Uruguai.
Três unidades brasileiras foram afetadas pela suspensão temporária, incluindo uma pertencente à JBS JBSS3.SA e que é uma das maiores fábricas de exportação de carne bovina para a China.
A Abiec afirmou que espera que o embargo temporário seja retirado neste mês.
A investigação sobre a carne, que começou em 27 de dezembro, deve durar oito meses, mas pode ser prorrogada em circunstâncias especiais.
Enquanto isso, a China ainda não renovou os registros de exportação das instalações de carne bovina dos EUA, os quais expiraram em 16 de março. Isto levou os traders a hesitarem em fechar acordos para comprar a carne bovina norte-americana produzida após essa data.
O setor de carne bovina dos EUA já está lidando com uma tarifa adicional de 10%, que foi imposta de forma retaliatória pela China sobre cerca de US$21 bilhões em produtos agrícolas norte-americanos. Qualquer nova restrição comercial prejudicaria ainda mais as vendas.
O Departamento de Agricultura dos EUA disse que está comprometido em trabalhar com a Administração Geral de Alfândegas da China para garantir que os produtores de carne bovina dos EUA tenham acesso contínuo ao mercado chinês.
O Brasil, o Uruguai, os EUA e a Austrália estão entre os principais fornecedores de carne bovina para a China.
(Reportagem de Ella Cao e Lewis Jackson em Pequim, Tom Polansek em Chicago e Ana Mano em São Paulo)
((Tradução Redação São Paulo))
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